Lá fora, o prateado do luar mancha o céu negro. Na rua agitada, os bafos quentes fosforescem como nas lendas.
Debruçado na varanda, deslumbro-me, alarmado, com a presença iluminada de mim em mim.
Nesta ainda curta vida, muita coisa aprendi e apreendi, e sei, que tanta coisa aprendida e apreendida está ali, à minha disposição quando dela preciso. Aprendi a viver na evidência, na vanguarda das coisas solidificadas.
No entanto penso. Imagino que sou personagem de uma daquelas lendas; Como é difícil e miraculoso pensá-lo.
Imagino que aquela perfeita e extremamente bela totalização de mim está comigo, ali, debruçada na varanda. Sei que ela se apodera dos meus olhos, sei que ela é o meu pensamento e que ela é a verdade que me queima o pensamento e a imaginação e que quando a vejo, naquele enormíssimo absurdo, se pretendo segurá-la nas minhas mãos, bem junto ao mais íntimo e profundo cubículo que há em mim, e revê-la nas horas do meu esquecimento, ela foge-me. Deixa-me embrulhado, embrutecido, raivoso daquela surpresa esperada e daquele ridículo absurdo, ridicularizado.
Também aprendi que há um problema na vida, pelo menos na minha, que é o de saber, saber da minha condição, e de restaurar a partir daí a minha plenitude e minha autenticidade.
Reconheço que criei a totalização de mim, à minha imagem. Criei aquele mundo, belo, inverosímil e complexo, que amealhei com suor, com o sangue que me aquece dia após dia.
Esse mundo ruiu... estou quase certo, embora com algumas incertezas, que é um mundo falso, cheio do nada absoluto, dos astros mortos e do silêncio. É estúpido pensar assim, dizê-lo desta forma, porque considero a sua existência um milagre absolutamente fantástico e instantâneo.
A lua subiu ao céu gélido. A rua está, finalmente deserta. Ouve-se um silêncio perturbador.
Entro para o meu mundo, e vejo, aquela totalização invisível, de corpo franzino, esfumando-se na umbra. Senta-se ao meu lado, estende os pés à luz escura que penetra ali e não diz nada. Simplesmente está. Tomo as suas mãos nas minhas e no deslumbramento da noite e do imaginário adormeço, quente, na plenitude de uma felicidade quase impossível.
Afirma-se o meu chão. Afirma-se o lugar onde amo. Afirma-se a totalização de mim; aquela que amo.
Rui Santos
Meu Deus, o estado aborrecedor da tua tosse de vez em quando abre os poros da tua inteligência e habilidade de escrita.
ResponderEliminarA rua é enorme, cheia de pessoas. Os carros atravessam-na vezes sem conta. O alcatrão está lá, mas ninguém lhe liga.
As pessoas que andam na tua "rua", entram e saem diariamente. Mas só quem olha ao alcatrão, ao que suporta a tua vida, merece estar na tua rua.
Faz da totalização invisível um presente. Material e mais-que-perfeito.
Quem está contigo e convive contigo diáriamente não pode sequer imaginar que escreves textos lindos como este...mas tu escreves...
ResponderEliminarQuando falas do mundo falso...concordo plenamente contigo...este mundo é falso...as pessoas que nele vivem são falsas..na maioria!
Desculpa Rui, hoje não foi um dos meus melhores dias...deixa-me apenas dizer-te que estes teus textos são uma lição de vida para quem os lê. És fantástico.
Beijinho*
Sofia
Adorei Rurú, o texto tava excelente, gostei particularmente a parte final e daquela em qe dizeste qe imaginavas ser uma personagem de uma lenda, também imagino muitas vezes qe o so, qe tudo é felicidade, qe so uma heroína e qe todos me veneram por isso.
ResponderEliminarTens muito geito para escreveres, nu tava nada a espera qe escrevesses mais um texto, de nos deixar a todos de boca aberta, pensei qe fizesses mais um relato do teu dia e da aula de história em particular.
Excelente, ó Gurú
Adriana
JEITO É COM J =D
ResponderEliminarAdiante, é por causa de textos destes que eu tenho sonhos daqueles. Mentira, mas ao menos arranjei algo para dizer.
Parabéns xD
Mosca