Este é o nosso maior bem, o nosso mais fantástico património.
Depois de olhar a minha avó com uma certa profundidade, e de ouvir com atenção a sua pregação, perguntei a mim mesmo se será esta a gente que temos.
Vi uma lágrima escorrer na sua face enrugada, com vestígios invisíveis daquela terra que em tempos foi o seu sustento, carregada de uma vida que morre um bocadinho a cada dia que passa.
Foi aqui que percebi que esta é a gente que temos. Esta é a gente que no seu tempo de criança não tinha nada, mas tinha tudo.
Vivemos na era da tecnologia. Tudo se torna acessível, rápido de alcançar. A vida torna-se demasiado fácil, porém agitada.
Depois de um dia de trabalho, chegamos a casa, estacionamos o carro topo de gama. Desligamos o alarme da nossa mansão, e mal entramos casa a dentro, temos à nossa espera um LCD enorme de alta definição com "enésimos" canais à nossa disposição , um computador portátil super avançado com o qual podemos estabelecer uma conversa com o amigo que está no outro lado do mundo. De repente o telemóvel , também ele topo de gama, toca e falamos com aquela pessoa que está no canto mais recôndito que podemos imaginar.
É esta a nossa rotina. A rotina das gentes de agora.
Paremos!! Pensemos como era antes.
Quando a minha avó tinha a minha idade, chegava a casa depois de ter trabalhado um dia inteiro naquela terra que lhe dava o pouquíssimo sustento de que vivia, abria o portão daquela pequena casa onde mal cabiam 3 pessoas, mas onde viviam 6 ou 7. Acendia o candeeiro a petróleo para poder ver cozer as batatas, o bacalhau salgado com 2 ou 3 dias, e o feijão verde que tinha que durar para mais umas quantas refeições.
Depois de jantar ficava à conversa com a família. A televisão era um sonho que ninguém sonhava, o telefone raramente tocava. Não havia notícias do ente querido que lutava em Angola, ou em Moçambique, ou do marido que tinha partido à pesca do bacalhau.
Hoje passamos na rua e vemos um cauteleiro tentando ganhar a vida à boa maneira antiga.
Vemos um velho sentado no banco de jardim, fumando o seu cigarro e lendo o jornal desportivo.
Entramos na taverna e lá estão os grupos de sempre: uns velhotes jogando a sua "suecada", com o copo de vinho e a empalhada ao lado. Ouve-se um relato do jogo de futebol da véspera.
Ao domingo as velhotas correm apressadas para a igreja, onde vão ouvir a sagrada palavra. Vivem a religião que lhes foi ensinada. Rezam o terço durante a Eucaristia e no fim comentam a roupa que aquele ou aquela levavam vestida.
Vivem a velhice. Descansam da vida difícil, em tempos vivida.
O barbeiro com o seu cantinho cheio de posteres com belas mulher nuas que faziam as delícias dos homens de há 50 ou 60 anos atrás, o engraxador de sapatos encostado à esquina da viela, o amolador com o seu apito, o ardina, e tantos outros, tentam manter viva a sua profissão. A profissão deste cantinho à beira mar plantado.
"Vocês sabem lá..." Diz a minha avó, após me ver um dia inteiro em frente ao computador, ou à televisão. "No meu tempo..."
Expressões que agora não fazem sentido, mas que marcam a vida das gentes de antigamente.
Um velhote vagueia na rua deserta, com o rosto molhado. Ninguém o quer.
Esta é a gente que temos!
Rui Santos
(obrigado João Correia)
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