quinta-feira, 4 de março de 2010

Somewhere

Era um lugar aconchegador. Vermelho como sangue, pequeno em tamanho mas muito espaçoso.
Ali viviam eles. Vários eles que se misturavam quase todos os dias. Muitos nem se conheciam; apenas tinham ouvido falar que o outro era alguém.
"Eii, posso entrar?" - Ouviam-se com regularidade estas palavras. De vez em quando, lá se via um ou outro a abandonar aquele espaço. Iam cabisbaixos. Mas tinham que partir.
Uns vivam sempre ali, nunca saiam, nem para passear ou ir dar umas voltas.
Outros, por vezes abandonavam aquele lugar. Nunca percebi porquê, mas voltavam sempre.
Quando voltavam, sentia-se um novo ar naquele espaço. Uma nova alegria voltava com aqueles que outrora saíram para passear.
Era um lugar especial. As portas estavam sempre abertas. À entrada havia um detector de personalidade. Só quem passasse naquele teste poderiam entrar. Os que por vezes saiam, já conheciam o teste, e por isso era fácil voltar a entrar, mas quem não conhecia, achava complicado, por vezes entrar naquele mundo.
Um dia, alguém se aproximou dali. Logo o detector deixou entrar aquela personagem estranha. Não precisou sequer de fazer o teste. Constatou com facilidade, e ao longe, que dali não podia vir maldade para aquela casa.
Entrou. Durante algum tempo ninguém, nem mesmo o dono do palácio, deu conta da sua presença. Aos poucos foi-se mostrando. Agora ocupa um lugar privilegiado e de destaque naquele local. Na porta de saída, um guarda tem ordem para não deixar sair aquele ser. É parte fundamental e vital para a alegria e bem estar do proprietário.
É certo que nunca tentou sair, e quem conhece, agora aquela personagem, acredita que não vai, sequer, tentar.
Alguém adivinha que lugar é esse?



Queria dar conta daquele ser. Aconchegá-lo no meu colo e dissipar todos os medos, todas as angústias e embalá-lo no meu regaço, para lhe poder dizer que lugar sinistro é aquele.
Todas estas sensações sibilam tão fortemente que se ouve lá longe, onde os outros que fogem se refugiam, para não sentir. Queria garantir que comigo por perto, nada nem ninguém pode afectar essa forma de ser.
Queria dizer-lhe que habita lá e que esse invólucro que apresenta, é apenas uma pele seca que mais cedo ou mais tarde irá largar, para dar lugar a uma nova casca, saudável e bonita. Acho que existe no meio um laço, talvez um nó, quem sabe, cheio de voltas e contravoltas, e que espero que não se desate. Pelo menos brevemente. Provavelmente, hoje não sente nada, ocupada que está aquela personagem, com a aritmética da existência. Se calhar estas palavras não lhe dizem nada e que talvez não acredite em mim no fim da linha, mas quando a linha acabar, eu vou estar lá.
Um dia, quero que se lembre destas palavras, e que nesse momento, seja aquele ser estranho, a embalar-me no seu regaço; a cobrir-me com a manta até à cabeça; afastando todos os fantasmas com um simples olhar.


P.S. Tenho saudades do Simba.


1 comentário:

  1. Será esse lugar aconchegador, pequeno em tamanho mas muito espaçoso, o coração? :)

    Carolina

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