Das últimas vezes que entrei naquele quarto, olhava a fotografia que estava colocada mesmo por cima da cabeça dele, e pensava "não são a mesma pessoa".
O retrato revelava um corpo robusto, forte, com um olhar meigo e brincalhão, mas tudo mudou.
Agora, era apenas um corpo que estava ali. Transmitia dor, fraqueza e o olhar pedia descanso.
Hoje relembrei muita coisa.
Lembrei-de da última vez que o ajudei a levantar do sofá. Foi para ir à casa de banho. Uns 6 ou 7 metros que se transformaram em milhares. Custou muito, e no fim ele apertou a minha mão com as poucas forças que ainda tinha e agradeceu-me.
Relembrei também algo que ele me ensinou. Aquilo que lhe dava mais prazer na vida: a música.
Ele vivia para a música. Ensinou uma parte muito grande dos músicos que conheço.
Uma vez, ralhou comigo porque eu não estudei a "lição". Lembro-me perfeitamente de todos os pormenores. Era a lição 49, e eu detestava-a, por isso não me apliquei. Na "lição", não fiz bem o solfejo, e ele zangou-se. Mas logo depois deu-me um rebuçado e umas palmadinhas de conforto nas costas. Ele não gostava de me ver jogar à bola. Achava inútil um rapazinho estar a correr a trás de uma bola, enquanto devia estar a estudar clarinete. Também foi ele que me deu o meu primeiro instrumento. Como foi agradável ver aqueles olhos reluzir mais do que os meus.
Era um homem fantástico. Tinha a mania de que tudo se curava com aquelas ervas e com aqueles chás miraculosos que guardava no frasquinho, na sala da música. Era também um bom garfo. Adorava comer e beber um copo de vinho às refeições.
Pessoalmente, adoro o carro que ele conduzia. Um Peugeot verde alface, muito velho, mas que parecia acabado de fazer, todos os dias. Ele estimava aquele carro como a sua própria vida.
Expressões como as que ele utilizava vão acompanhar sempre a minha memória.
Quem me dera que estivesses aqui. Quem me dera não escrever isto. Quem me dera não estar a chorar.
Descansa em paz, velho amigo.
Sem comentários:
Enviar um comentário